quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Devaneio de índio


"Eis, que cedo acordo. Com a manhã densa em névoa; e eu, ainda descrente do sonho mais vivo em que naveguei, onde criança eu enxerguei teus olhos presos a deriva, e um sorriso tão límpido em marfim. E o que bordarás de mim, sendo tão rio-corrente minha saliva? Tão exilado a este sonho estou! Por dizer assim.
 Brincamos sob a areia areia suja, e eu pintava a casca do teu rosto  com a argila pálida. Lhe deixando o mais belo e robusto dos índios. E sais correndo por entre os pés de capim e galhos de árvore, e ainda estufavas o peito, engatilhavas o grito e o arremeçava! Grito que compassadamente diluia-se nas cores infindas que não cabiam naquele dia. E torturavas a alegria da natureza que há em mim.
 Vinhas ao meu encontro, ansiando transformar-me em teu elo. E acariciava-me o rosto, e eu me curvando a deitar em tuas mãos, acalentada por entre os dedos! E com o outro braço forte, negro que era a outra banda do pão envolvia-me ao manto do teu abraço. Onde por fim seria escaço! E ao meu choro tinha-o eterno, mas também exausto. Sendo assim, a primeira vez em que a palto senti o morno do teu corpo e tuas mãos grossas feito asfalto, com argila de mangue no olfato alí, eu só queria lhe ter.
 Pós este fato, encontrava-me nos lençóis soados da segunda cama, e alguém sussurrando que me ama. Eram os olhos cheios de mar de um homem profano, que vinha para alçar os panos, e da natureza dos teus braços me tirar.
 E tu, meu robusto e acácio jovem entras no quarto, não acendes a luz ... e o quarto plana em incerta escuridão, iluminado apenas sob a fresta mansa de luz da porta que não fechara; quebrando assim a luxúria estática. Lá fora o sol cobra-coral arde e dissolvia-se na cor dos teus rubros olhos que também serpente estavam.
 Era o único dos sentidos em que eu ainda lhe tenho. Despido, rumo a ti clamando que sejas ainda meu acalanto e minha calmaria.
Mas ora, como eu sofria! Quando a porta infeliz tu abrias e se despedia com as dunas das costas.
 A última das imagens que catálogava em postas, com os joelhos fincados como quem estivesse em rochas.
 O quarto já iluminara. Frente a porta, o sol fervia-me as costas por entre os vidros da janela que por trás o vento entrava. E a última fatia de felicidade que me restara; se desperçara, quando por sobre mim os lençóis eu retirava. "È hora de acordar".

                                                                                                 (Derik Fonseca)
                                                                                           

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Aqui

Ontem ao apagar das luzes
Acendo-te vela que embriaga-me olhar
Sob a cama...
Atento a pequena fresta de luz
Que ilumina o quarto inteiro.

E tremes luz...
Eis que encontro-me em medo
De dissolver na escuridão que há em mim
Está calor, estou com medo...
A vela acabando... desagua
Sem o apalpar das horas...
Mas sei que é tarde! Tarde por até demais
Já é medo, pego-me pensando em ti
O sono desvai... Medo!
O lençol recai sobre meu corpo trêmulo
Do medo de ti que há em mim
Eis que reside...
A vela, o suor, a sombra...
Do medo de mim que é a mais.

                                        (Derik Fonseca)

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Amor infânto


Debaixo da sombra das árvores descansa

Só esperando o cair do sol
Fui abandonando os meus sonhos de criança
Esperando que amanse o destino que me quer só.

Por mais que o tempo voe meu amor
Em teus olhos a doçura inerte da infância 
E de um amor infânto eu te faço música
Em teus olhos me ponho, em teus olhos tudo sou.

Não tenha medo do futuro minha criança
Vamos viver a candura desse amor
Vamos fazer do tempo nossa valsa
E de um amor infânto, fazer música.

                                            (Derik Fonseca)

Musicado por Derik Fonseca

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Flor

E tu quem és?
Na janela fico a observar-te
E teus olhos a inebriar-me vago instante
Aflita! Encontro-me na janela 
Como flor que pouco regas meu amante.


Quem és?
Nos lençóis de minhas dores encontro-me
Perdida em meu siso...
Vendo a bolha de meus devaneios que tão longe vai
Sem encontro. Não anseio mais amar-te
Mas na janela ainda estou.


E eu quem sou?
Sou a flor aflita que nem tu plantaste 
Que de um jardim qualquer me apanhou
E lá me pôs, sem regar ou podar-me alma
Alimentada por minhas lágrimas
Que em água e sal faz-me pequena pétala sem cor
Onde frágil o vento leva...
Gota em gota! Dolorosa e paulatina como meu crescer.


E lá! Na janela fico a observar-te
Sem nem saber mais quem eu sou.


                                                (Derik Fonseca)


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" Subi a porta e fechei as escadas
Tirei minhas orações e recitei meus sapatos,
desliguei a cama e deitei-me na luz.
Tudo porque ele me deu...
um beijo de boa noite."




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domingo, 29 de agosto de 2010

Garças

Garças levitam, levitando são
A voz do ar, a asa ausente da paixão.
Do corpo fez-se a marca
Do riso fez-se o amor
Da presença um incerto sabor
Que ancora na malemolencia de quem ama
Garças colorem areia, mar e ar
E o mar aos ciúmes de quem espelha
Os doces, rubros tons de seu levitar
Garças sabem o rumo
E levam consigo sua indecifrante beleza
E as garças choram ao despeçar-se 
Dos devaneios de um coração.


E lá ficam colorindo o bando!
Também ficam o cinza e a inércia de quem deve partir
Garças serão...
Junto a necessidade do sol
A necessidade que tem um coração
Na sombra da partida deixarão
Os ventos tristes, e quase sem pulsos
Força apenas de derrubar a lágrima.
Serão..
O itinerário dos abraços
arma contra o mal escaço
O além, o instante. A doçura branda de minha paixão


Serão...
Parte vida em vinda
Que bem vinda a vida parte
Serão... O acender e arder de minha arte
O ponto! De quem nunca um dia partiu.


                                                 (Derik Fonseca)


                              " Para Verônica Bernardino e Nayara Vianey "


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A possível noite

È noite
São 21:00hs
Passo
Passo a passo
Tu passas
Divago
Fantasias mil...
E o teu olhar.


São 23:00hs
O tempo passa
Passam horas...
Passo
Passo a passo
Agora, são 02:00hs
Um aceno
Sem abraço
È escaço.
Ouço "águas de março"
Fumamos um maço
Em diferentes acentos reciclados 
Contemplo o espaço...
Penso / divago / me lanço / me perco / é tarde!
Saímos.., e "aquele abraço".


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